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Sorriso ao sono

Encerrar o anseio por mais uma vez encontrar alguém é quase desejar a própria nostalgia do passado perfeito, é contar, reviver, mentir.      Era o tempo de meias tardes, as mesas todas ornamentadas, a música convidativa. Ela em um gesto, que antecipava ao sim, deslisava leve em direção de alguém que nunca imaginaria o que tudo aquilo poderia se transformar. A primeira e única dança, forma perfeita de aproximação e despedida. A euforia de todos nada seria se comparadas à sua.      A angústia, preço das possibilidades de escolha, tomava-o como alguém que aguarda algo que não lhe é possível. As conversas sem jeito, os olhares atravessados, o toque. Nada que ali acontecesse, que não ela, poderia de alguma forma destacar-se aos seus sentidos, estava inerte ao mundo e atento aos cheiros, sons e beleza de uma única pessoa.     Não houve passar de tempo, existiu apenas o fim da festa. O desespero de que tudo terminasse ali, a impossibilidade de algo real, a necessidade de experimentar o…

Elena e eu

Poderia ter sido da forma mais simples, eu vendo você dançar. Quem sabe dentro do avião, você indo tentar a sorte fora e eu procurando um pouco de alguma coisa que não sabia que faltava. Na faculdade de artes, na filas. No embalos da sua tristeza rente à rua filmando sua sombra, talvez tivesse sido quem te aplaudia em te ver apresentar Guimarães, a pessoa a te ver em silêncio no metrô, alguém a te fotografar na praça no instante em que você chorava por saber da sonhada conquista. Mas não nos conhecemos, você se foi, e em mim algo de incompleto permaneceu.

Cinco

Era para ter sido um presente. O encontro com os próprios limites e frustrações nunca é fácil. Como de costume, comprar algo para alguém é sempre um choque das próprias vontades e nuances alheias. Estava decidido, daria um livro de poesias, provavelmente Drummond.          Livraria de amigo é sempre mais fácil, põe a conversa em dia, reclama, conselhos, indicações, a cerveja na hora do almoço. Deixei de lado a ideia de pedir ajuda com o presente. Quase hora de ir embora, o destaque. Excelente idéia, o velho Frederico Schimidt.           Muito boa escolha, agora só precisaria de uma boa dedicatória. Folha em branco, fazer primeiro o rascunho porque as idéias não andam claras: "dar conta dos seus sorrisos". Que bonito, será assim que vou terminar, sim é interessante pôr a data, assinar, quem sabe as razões de ser aquele livro.         Quase atrasado, tem que ter papel de presente, não me acostumo com a ideia dessa fita, "basta o senhor puxar as duas pontas"…

Enquanto encontro quatro letras

Um pequeno engano. Um jeito simples e que de certa forma apresenta algumas idéias que de tão óbvias tornaram-se nulas: respeito às escolhas, respeito ao tempo, respeito ao cotidiano sensível. Em tempos em que parar para se ouvir soa mais como piegas do que com gesto mínimo de compreensão, descobrir que pensar duas vezes antes de agir pode indicar ser tarde demais, faz acreditar que a vida não é apenas feita de escolhas nossas, mas de um complexo de versos. A escolha foi minha, saber o que poderia me acrescentar, quase um verso livre em meio a um soneto.

Notas do espelho

Teus seios são sonhos,
obra acabada, traços polidos,
preenchimento perfeito entre o côncavo e os dedos.
Marcas sem tinta ou cores, canção dos Tamoios,
impulso, extensão de desejos,
nota perfeita de gozo.



Dois

Mesmo olhando em direções diferentes, pergunta: "Você realmente acha que ali ficaria melhor?". De nada adianta, o quadro sempre fica no local ideal para a visita.

Da janela